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CAPÍTULO VIGÉSIMO NONO

No documento livro2 (páginas 99-101)

CAPÍTULO VIGÉSIMO NONO

DOS IRMÃOS DO CAPITÃO TRISTÃO VAZ DA VEIGA E SERVIÇOS QUE FIZERAM À COROA

Se Tristão Vaz da Veiga é valoroso capitão nas armas e mais partes tão abalizadas, não foi, nem é, só em sua progénia, porque seus pais e avós tiveram também outras semelhantes, que não conto por não fazer longo processo; só direi, brevemente, algumas de seus irmãos.

Seu pai, Manuel Cabral da Veiga, teve de Antónia de Lemos, sua legítima mulher, sete filhos e uma filha.

O mais velho, chamado Diogo Vaz da Veiga, esteve em Arzila dois anos, servindo uma comenda; depois, serviu em algumas armadas. Foi três anos capitão de uma galé e aconteceram-lhe boas venturas. Faleceu de menos de quarenta anos, estando eleito por Capitão de Tânger, e não lhe ficaram filhos.

O segundo se chamou Lourenço da Veiga. Sendo mancebo, serviu algum tempo em Arzila e em Tânger, onde foi ferido; depois, andou em algumas armadas por soldado e foi capitão-mor de uma, em que o mandaram em busca de um cossairo, que tomou o galeão e matou (165) a D. Luís Fernandes de Vasconcelos, quando ia para o Brasil; e foi capitão-mor de

outra armada para a Mina, e capitão-mor de outra, que veio a estas ilhas dos Açores esperar as naus da Índia, aonde, antes disto, tinha ido por capitão de uma nau. Ultimamente, o mandou el-Rei D. Sebastião por Governador do Brasil, onde esteve quatro ou cinco anos, e lá faleceu, sendo de cinquenta e um anos, já em tempo de el-Rei D. Filipe, nosso senhor. Ficaram-lhe seis filhos e duas filhas. O mais velho, por nome Fernão da Veiga, foi duas vezes por capitão à Índia em uma nau, e, estando para entrar e ir por capitão-mor, faleceu em Lisboa. Outro, chamado Diogo Vaz da Veiga, estava com seu pai no Brasil quando morreu e veio por capitão de uma armada de lá para o Reino; tinha o hábito de Aviz, com duzentos mil réis de renda; depois foi servir a el-Rei à Índia, onde foi morto a ferro dos mouros; e lá estão, também no mesmo serviço do Rei, dois mais moços, Manuel Cabral da Veiga e Sebastião Vaz da Veiga, com cargos honrosos, afora Tristão Vaz da Veiga (166), que também lá foi morto pelos mouros; o mais pequeno, chamado Luís da Veiga, é religioso. Das duas fêmeas, a mais velha, D. Maria, é casada com João Taveira; a mais moça, por nome D. Filipa, com Diogo das Póvoas, provedor da Alfândega de Lisboa.

O terceiro por nome Luís da Veiga, foi com seu irmão Tristão Vaz da Veiga para a Índia, ambos juntos, no ano de cinquenta e dois, e no mesmo foram de socorro a Ormuz, que estava cercado de Turcos, e lá, no de cinquenta e três, faleceu de febres.

O quarto, Tristão Vaz da Veiga, capitão de Machico, de que já tenho dito.

O quinto se chamou Hierónimo da Veiga, que, sendo moço, serviu nas galés com seu irmão Diogo Vaz, onde mostrou bem de sua pessoa, na tomada de Xaramet Akais, cossairo turco. Foi para a Índia em companhia de D. Constantino, no ano de cinquenta e oito, e com ele se achou na tomada da cidade e fortaleza de Damão, em Cambaia, e nela ficou dando mesa a muitos soldados; faleceu em Goa, de doença, daí a dois anos.

O sexto, Simão da Veiga, gastou os anos e a vida em serviço da Coroa de Portugal: sendo moço, andou por soldado nas armadas e foi na da tomada do Penhão de Beles (167), serviu em Tânger, foi por capitão de um galeão com seu irmão Lourenço da Veiga em busca de Jaques Soria; foi por capitão de outro galeão à Mina, também com seu irmão. Depois foi capitão-mor de uma armada à Mina e de outra à costa de Portugal, e naquele verão tomou oito ou nove navios de cossairos franceses. Foi por capitão-mor da armada de alto bordo, quando a primeira vez el-Rei D. Sebastião foi a Tânger, e no seu galeão veio el-Rei, quando se tornou para o

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reino; e, ultimamente, foi com o mesmo Rei a África, onde o mataram, como os que de lá escaparam sabem. Foi homem de que se fazia muita conta, muito temido e esforçado por sua espada. Era casado com D. Isabel, de que lhe ficaram quatro filhos e duas filhas; destes, o mais velho, que se chamava Manuel Cabral da Veiga, do hábito de Cristo, com duzentos mil réis de renda, acabou na armada em Inglaterra, sendo já casado.

O sétimo se chamou Gaspar da Veiga; este, sendo de quinze anos, o levou seu irmão Tristão Vaz da Veiga consigo ao terço de Mazagão e lá, no primeiro combate, lhe deram uma arcabuzada nos peitos; ficou-lhe o pelouro e parte do cossolete dentro do corpo, e desta ferida, que nunca se lhe cerrou, morreu na Índia daí a dois anos, sendo de dezassete.

A filha, chamada D. Brízida Cabral, casou com Francisco Botelho de Andrade, camareiro e guarda-roupa-mor do Infante D. Luís, de que houve filhos, e o mais velho, chamado Diogo Botelho de Andrade, também acabou com el-Rei D. Sebastião.

Isto é o que brevemente soube na verdade e digo, sem nenhum afeite (168), dos irmãos do

capitão Tristão Vaz da Veiga, e daqui se verá que toda esta geração de Veigas gasta a vida no serviço desta Coroa, e estão apostados a morrer por seu Deus e por seu Rei na guerra. O mesmo pudera dizer de seus avós, pai, tios, sobrinhos, primos e mais parentes, que, por ser breve, calo, cujos heróicos feitos deviam contar os cronistas do Reino em suas Reais Crónicas, onde eles merecem ter seu lugar.

No documento livro2 (páginas 99-101)