DE OUTROS DANOS E PERDAS QUE SE ACHARAM FEITAS NA CIDADE DO FUNCHAL, E DO SOCORRO (344) QUE CHEGOU À ILHA DEPOIS DE PARTIDOS OS IMIGOS (345)
Partidos os franceses com suas naus bem carregadas e cheias, como tenho dito, fazendo forol indo na volta do Sueste, pareciam levar a rota de Lançarote, como, de feito, levaram.
Aquela noite de sua partida, que foi véspera de S. Lucas, o mesmo dia de S. Lucas, pela manhã, muitos vieram ao varadouro e porto onde eles embarcaram por ver o que saía à costa daquelas roupas e coisas que daquelas naus haviam lançado, porque, como, à vista de todos os que já na cidade estavam e já vinham para ela, dos lugares donde haviam estado aqueles dias de sua miséria e desterro, tanta coisa andava no mar sobre a água, que todo aquele ancoradouro era cheio. Cuidavam que tudo sairia à costa e pela manhã se acharia na praia daquele porto do Funchal, por fazer tempo quieto e bonançoso; mas de quanto se esperava ver fora, que assaz fora bom para seus donos e a muitos ficara remédio com que se cobriram, não se achou, nem saiu a terra mais que dois ou três cobertores e um ou dois colchões do muito que haviam lançado fora; parece que, como se embebeu e encheu de água, se foi ao fundo e assim se perdeu tudo, e o que se achou foi o que eles não puderam levar, cansados já de embarcar tanto.
Estavam perto do mar muitos quartos cheios de carne em salmoura e os mais de carne de porco; também algumas pipas de biscoito e muitas de vinho e algumas de mel; estavam, assim mesmo, duas peças de artilharia mui grossas, que haviam levado da fortaleza, cuidando de as embarcar, ou lançar dentro no mar, que não fossem vistas, nem achadas, mas, como tão grandes e pesadas fossem, não podendo delas fazer o que cuidavam, as atupiram, pelas bocas, de calhau, atochando-o e metendo-o com mastos (sic) de barcos, de tal maneira, que ninguém julgava prestarem para se poderem servir delas, porque além de serem atupidas, de tal arte eram também, pelas escorvas, acravadas com brocas de fino aço, temperado, e metido com força de malho, de modo que o buraco, que, da escorva, antes era redondo, estava quadrado, com tanta força e violência atochados (sic). E da mesma maneira estavam outras seis peças, tamanhas e tão grossas como estas, na fortaleza, que atupiram e encravaram, a fim de jamais prestarem, nem com elas atirarem.
Eram e são estas peças de vinte e quatro e vinte e cinco palmos de comprido, e de três em grosso pela culata (sic) até os bulhões, e vêm acabar na boca, de dois palmos e meio todo o grosso, de maneira que são das maiores que há neste Reino, mais compridas que o tiro de S. Miguel, que está na fortaleza da Ponta Delgada nesta ilha, e mais grossas.
Assim que isto só foi o que ficou no porto e o que se achou, tudo se pôs em cobro, ainda que a carne não faziam caso dela, dizendo que aqueles cães a deixariam, por ventura, acinte cheia de rosalgar, para matar a quem a comesse, o qual não era assim; e não sei o que dela se fez, creio que se aproveitaria, depois de feita experiência, na falta que havia e houve naqueles dias, até se prover a cidade de mantimentos ordinários, como depois se proveu.
Este dia de S. Lucas, que ao sábado era, se alimpou e lavou bem a cidade, templos e casas, praças e ruas, queimando todos os monturos, cães, e gatos, e porcos, e todas as alimárias, que estavam por eles, e mortos e enterrados, e sepultados todos os corpos de portugueses mortos, que nas casas achavam, e fora da cidade, em algumas casas de quintãs, onde orredor (346) da cidade se haviam acolhido, e os que viam serem de franceses os
queimavam.
E, acabando de ser todo queimado quanto disto havia, foram abertas as levadas de água e soltas pela cidade, para que todo fosse lavado e purificado, que, como já atrás fica dito, toda esta cidade do Funchal se rega por altos e baixos, por ruas e becos, e assim ficou este dia tudo
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acabado de alimpar, e as sepulturas no adro e mosteiro de S. Francisco acabadas de cobrir e assentar, que toda a igreja e adro eram cheios de covas abertas, cada uma das quais onde vinte e mais corpos eram lançados; e no primeiro adro, onde está a primeira cruz, havia cova aberta, que era de espaço de uma grande casa, onde diziam os portugueses, que com os franceses andavam, que eram lançados mais de oitenta homens, que dos mortos da fortaleza ali lhe mandaram os franceses trazer e enterrar, e muitos deles os ajudavam; e os mais enterraram dentro do outro adro e igreja e crasta do dito mosteiro.
Este dia se desenviolaram os templos e se preparou tudo o melhor que pôde ser para ao domingo se celebrar, ainda que na Sé não se celebrou, por não se poder aquele dia tudo purificar, nem alimpar.
Este dia se viram o provedor dos Resíduos, o licenciado Luís Preto, e o Padre Frei Manuel Travassos, e o síndico das freiras, Manuel Vieira, e Genobre Chiole, com Gonçalo Pires, escrivão dos Contos, que ainda de suas casas, à Carreira, onde morava, não havia saído fora, porque, de mais de ser velho, não estava também disposto, e dois capitães franceses o tomaram em suas casas e o asseguraram que nenhum mal receberia deles, e pousaram com ele dentro sem lhe fazer nenhum dano.
Este Gonçalo Pires afirmou aos ditos provedor dos Resíduos, e a Fr. Manuel Travassos, guardião, e aos mais, como aqueles dois capitães, que em sua casa tivera por hóspedes, lhe certificaram que não traziam, nem trouxeram, pensamento de entrar na ilha da Madeira, mas, de caminho, ver se podiam haver naquelas quintãs e lugares, onde saíram, algum vinho e gados para sua viagem, e que iam direitos à Mina, e que aquela cidade do Funchal se lhes havia entregado de sua livre vontade; indo-se à Praia Formosa descobrir e fugir para trás, onde, por ordem de seu Geral, foram todos desembarcados e, subindo a ladeira da Praia, viram os caminhos cheios de homens e mulheres a fugir para a serra e que, sabendo seu Geral a cópia e número da vizinhança daquela cidade não chegar a dois mil vizinhos e vendo, por vista dos olhos, todos os caminhos, que para o mato iam, serem cheios dos que, fugindo, iam da cidade, tomara conselho com os capitães, e se deliberaram de ir sobre ela, visto a pouca resistência e defesa que nela podia ficar, pois todos fugiam, e que nunca tiveram para si que aquela cidade fosse entrada com muitos mais dos que eles eram, e assim não traziam esse propósito, senão depois que viram que não lhe ficava resistência, e que iam mui ricos do saquo que nela houveram, sem lhes matarem mais de quatro soldados e seu Geral, por se não haver querido curar de um golpe que uma lasca de uma pedra lhe deu em um giolho o dia da entrada, o qual tiro, que fez saltar a lasca, viera do mar, de um navio, que àquela hora se fazia à vela, e atirara, e por isto se afirmou ser a caravela de Setúval a que atirou, cujo piloto e senhorio era um bom homem, falto de um olho, a que não soube o nome; este atirou a estes, quando já queriam entrar na cidade; cuido seria nos que vieram pela banda de Santa Caterina, que descobre ali o porto em claro. Não lhe quiseram estes capitães dizer seus nomes, nem menos o nome do Geral, senão que era um grande senhor e bom soldado e que sua morte havia de ser bem sentida em França, e seu corpo ficava sepultado em um templo, em lugar onde nenhum daria com ele e que só os capitães o sabiam, que o haviam sepultado, sem nenhum outro francês o saber, e que a um seu sobrinho ali haviam alevantado por Geral, que era um mancebo mui bem disposto e um bom capitão de guerra. Assim mesmo, lhe certificaram que o dia de S. Francisco, quando os de Santa Cruz e Machico foram em socorro dos da cidade, que foi logo ao outro dia depois de eles haverem entrado, se vieram sobre eles, eram todos despachados e mortos, porque nenhum tiro, nem carga de pólvora, tinham em frasco, nem barril, nem outra arma de que usar, senão suas espadas, e tão cansados e desvelados, que duzentos portugueses bastavam para os cativar e prender, ou para não deixar nenhum deles a vida, e que não abastava ter nisto muita conta os capitães e oficiais em proibir aos seus não se lançassem ao vinho, que seriam facilmente perdidos por o daquela terra embebedar muito; sem embargo disso, não ficaram trinta homens que aqueles dois dias prestassem; e, se os herpes caíram na perna do seu Geral, não fora senão porque aquelas três noites arreo não dormiu, nem sossegou, fazendo trincheiras e repairos, cuidando nada disto lhe bastasse, por haver tido notícia de virem sobre ele toda a gente da ilha. É de crer que o medo, que tomou com esta nova, lhe fez espasmar a ferida, e assim lhe saltaram os herpes e morreu logo daí a cinco dias. Também lhe disseram estes capitães como o seu Geral fizera com Francisco Gonçalves da Câmara, que com as mulheres cativo estava, mandasse dizer aos que vinham que não aparecessem, porque, logo, em se descobrindo, todos os que estavam em prisão com ele seriam mortos e que por demais era sua vinda. porque estavam tão fortes os franceses, que diziam que nem a todo Portugal tinham medo. Mas a verdade era estarem
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rendidos, e mais, quando souberam que a pólvora, que esperavam, lhes era tomada e os que a traziam mortos e presos, dos quais António do Carvalhal se havia bem de informar da necessidade em que estavam, e o tempo indisposto para as naus virem ao porto e também receosos de lhas tomarem, indo de noite a elas lá na Praia Formosa, onde ancoradas estavam, por não terem nelas gente que as defendesse. Nestes e em outros receios estiveram aqueles três dias ou quatro, antes que de pólvora e de munição fossem providos. Os da terra haviam dito aos Capitães de Santa Cruz, Leomelim e Freitas que, de noite, em sete ou oito barcos, que havia em Santa Cruz e Machico, indo homens de feito, podiam entrar e abordar as naus do imigo e pô-las em cobro, o qual seria melhor e mais bem acordado feito que naquela conjunção se poderia fazer, porque, bem olhado, as naus não podiam ter em si mais que a gente de marinhagem e, posto que alguma mais tivessem, seriam tão poucos, que bem poderiam os da terra dar com eles, acometendo-os por muitas entradas, ao que os Capitães responderam que seria temeridade fazer tal acometimento, porque não era de crer que não estivessem eles a tudo aparelhados, o que não estavam, pelo que estes capitães certificaram ao dito Gonçalo Pires, escrivão dos Contos.
E nisto e noutras coisas, que se disseram, se passou aquele dia de S. Lucas. Ao outro, que era domingo, se apregoou haver no moesteiro de S. Francisco missa e pregação de um frade domínico, bom letrado, que dantes pregava na Calheta e na Ponta do Sol, vilas do termo do Funchal, e como, do povo, que já era junto, muita parte dele soube que havia missa e pregação no mosteiro, se ajuntou a gente cedo, por não errarem a hora, pois não havia sinos com que se tangesse à missa, que todos eram quebrados e derretidos e os que ficaram sãos não eram para poder tanger, por estarem derribados.
Pregou o padre (sic) mui bem, tomando por tema aquilo de S. Augustinho: «Os males que padecemos, nossos pecados os mereceram». Provou como os pecados daquela cidade foram os que haviam trazido os luteranos a ela, a fazer tal estrago de vidas e fazendas e tais insultos e sacrilégios nos templos de Deus e coisas dedicadas ao culto divino, não ficando nenhum estado sem particular reprensão, com grande choro dos circunstantes; deteve-se o padre muito em consolar ao povo, dizendo-lhe que muito lhe seriam prestadias aquelas lágrimas, se tivessem paciência e melhorassem as vidas, ainda que muito mais consolados ficaram, se ouviram a Fr. Martinho Tamayo, que era o pregador do Funchal, frade do mesmo hábito, grande letrado, também castelhano, como este, o qual se havia partido também para Lisboa em o navio do aviso da entrada do Funchal, que de Santa Cruz havia partido logo ao segundo dia ou terceiro da entrada dos luteranos da cidade, de que adiante direi.
Acabada a pregação e saídos da missa aquele domingo, vieram os cónegos e o daião, vigairo geral, desenviolou a Sé e os outros templos, em que dali por diante se tornaram a celebrar os divinos ofícios.
Aquela semana os Capitães Francisco Leomelim e António de Freitas prenderam a Francisco de Porras, filho da Capitoa da ilha do Faial, uma destas dos Açores, e a outro homem nobre, os quais, segundo se achou, foram muito culpados, por se haverem lançado com os franceses e enganado a muitas pessoas, assegurando-os que tornassem para a cidade, onde depois eram avexados; os Capitães, por esta causa, os embarcaram presos em uma caravela, que viera da ilha de Canária, para Lisboa, e enviaram cartas com recado do que passara e como havia já alguns dias que os franceses eram partidos, além (como alguns dizem) de outro recado, que dantes tinham mandado ao Reino em outra caravela que se achou em Machico, que, brevemente, dentro em quatro ou cinco dias, chegou a Portugal e deu aviso a el-Rei e ao Capitão Simão Gonçalves de Câmara, que neste tempo lá estava na Corte.
Foi levado o Porras a Lisboa e lá sentenciado a degolar, e, por ter padrinhos, não o degolaram, mas foi degradado para o Brasil, ou S. Tomé, e veio a morrer enforcado na Terceira, por mandado do Marquês de Santa Cruz, no mês de Julho do ano de 1583, quando se fez justiça do Conde, que queria ser, chamado Manuel da Silva, e dos mais que ali acabaram; e também acabou este Porras seus caminhos. E parece isto não carecer de mistério: ser preso em Santa Cruz, por se haver lançado com os franceses, e ao cabo de dezasseis anos ser tomado antre franceses, em ajuda dos revéis, e condenado à morte, sendo enforcado por mandado do Marquês de outra vila de Santa Cruz.
Isto feito, daí a dois dias veio uma grossa armada de oito galeões grossos e algumas caravelas e zabras, a qual, em Lisboa, se fez com a presteza possível, como lá se soube da
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entrada dos franceses no Funchal; era Geral Sebastião de Sá, do Porto, capitães seu irmão, Pantalião de Sá, e outros, a que não soube os nomes.
Veio nesta armada João Gonçalves da Câmara, morgado, filho de Simão Gonçalves, Capitão do Funchal e ilha da Madeira, e com ele o Capitão Alexandre Moreira, que era capitão em Tânger, ou em Mazagão, Gaspar Luís, por Sargento-mor, para pôr boa ordem nas coisas da guerra, como pôs, e outros três capitães da infanteria, dos do número, o Salvaguo, e Hipólito (segundo cuido) e D. Enhigo, e outros ilustres capitães e fidalgos, que com João Gonçalves da Câmara e Sebastião de Sá vinham, cuidando empregaram bem a vida em serviço de Deus e de el-Rei, D. Luís de Cascais e D. Luís Coutinho, Comendador da ilha de Santa Maria; os mais destes senhores e morgados vinham à sua custa. O Grão-capitão Francisco do Rego de Sá, desta ilha de S. Miguel, que daí foi por capitão em um dos galeões de el-Rei em seguimento dos franceses (347).
O primeiro que aportou no Funchal foi João Gonçalves da Câmara, morgado da ilha, que, pelo que lhe cabia, partiu dois dias antes que a outra frota em dois navios com muitos parentes e amigos seus a socorrer a sua cidade, sem esperar por armada nem mais ajuda que a que levava de seu esforçado coração, o que não deixou de ser julgado por temeridade, pois tão ousadamente se oferecia a tão evidente perigo, mas ele, entendendo que nas coisas de importância a determinação há de ir diante do conselho, principalmente naqueles negócios em que não convém haver detença, quando nelas está o perigo deles, portanto, não curando de considerações em tão urgente negócio, pelo que cumpria a sua honra, além de o cometer como cavaleiro, vinha com tenção, dois dias antes de sair em terra, com sua companhia, juntamente, e com os naturais, dar em os franceses, que havia seis dias, quando ele chegou, que eram já partidos para Canária; e na Gomeira e Lançarote se detiveram alguns dias em se arrumar e resgatar alguns escravos e fato, donde vieram na volta destas ilhas dos Açores, e daí se foram a suas terras.
Chegada esta grossa armada, com muitos fidalgos e gente ilustre, ao porto do Funchal, parecia e mostrava serem mui pesantes por não virem a tempo que acharam os franceses nele. Perguntou o Geral, logo, como saiu em terra, pela rota que os franceses haviam levado, e disseram-lhe que, a juízo de todos, estariam em Lançarote e em algumas das outras ilhas de Canária, resgatando fato e vendendo escravos, de que iam cheios, que, para se poderem marinhar, lhe fora forçado, antes de partidos daquele porto, lançarem ao mar a soma de roupa já dita, e que, sem dúvida, lá seriam, por não terem outro lugar donde pudessem resgatar e vender mais à sua vontade que naquelas ilhas. E assim era, que lá foram vender muitas coisas do que levavam, como depois se soube.
O Capitão-mor mostrou ter grande desejo de ir logo após eles; aquele dia não saíram em terra mais que os capitães e alguns fidalgos, por onde todos entendiam que toda a armada se levantaria logo em seguimento dos franceses, mas não foi assim, que consentiu o Capitão-mor que saíssem os soldados em terra, ao outro dia, e foi tal a desordem que, sem falta, fora muito melhor não haver vindo aí; foi outro saquo na terra, em especial nas coisas dos mantimentos e nos canaviais de açúcar, sem ser possível aqueles seis dias embarcar-se soldado nenhum; tudo era fazerem arruídos, feitiços e assomadas e não darem nada por Geral nem capitães; ao cabo de oito dias se embarcaram mal, e por mal cabo (como dizem), porque se iam os soldados embarcar, e tudo era ir a Machico, e a Santa Cruz, e tornar à cidade do Funchal, porque se fez a armada à vela, por caso do tempo contrário, para estarem sobre âncora.
Ida a armada em busca dos franceses a via de Lançarote, ficou no Funchal o morgado João Gonçalves da Câmara, filho de Simão Gonçalves da Câmara, Capitão da ilha, e o capitão Alexandre Moreira, e Hipólito, Salvago, e D. Enhigo, todos capitães do número, e Gastrur (348) Luís, sargento-mor de toda a ilha, e também Francisco Osório, que nesta ilha depois foi sargento-mor; ficou também Pantalião de Sá e Loronha, (sic), todos para porem cobro na terra e dar boa ordem nas coisas da guerra, e ensinarem nisto a todos os moradores daquela cidade e de toda a ilha, o qual se fez cumpridamente, porque nisto, de contínuo, se excitavam todos os dias de festas e alguns de semana.
Estavam (como já disse) as peças, que havia, de artilharia, muito grandes e grossas, todas acravadas e atupidas, que para nada podiam servir, senão para se derreter e fazer outras. Quis saber João Gonçalves da Câmara, com todos os demais capitães, se teriam algum remédio para poderem servir, porque sem elas nenhuma defensão tinha aquela cidade contra imigos, que esperavam vir sem falta, segundo havia notícia, principalmente ingreses, de que tinham
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mais receio; porque não havia muitos anos atrás que naquela cidade haviam enforcado dezassete, de seu poder absoluto, e, sem esperarem sentença do Desembargo de El-Rei, mandaram deles fazer justiça, pelo que se dizia que, por serem alguns destes mortos pessoas de sorte e bem aparentados, correndo a nova disto a Inglaterra, os ingreses tinham jurado