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CAPÍTULO SÉTIMO

No documento livro2 (páginas 31-33)

CAPÍTULO SÉTIMO

COMO O CAPITÃO JOÃO GONÇALVES ZARGO, DEIXANDO OS NAVIOS NO DESEMBARCADOURO, FOI DESCOBRIR A COSTA DA ILHA ATÉ CÂMARA DE LOBOS, DONDE TOMOU SUAS ARMAS, E, VENDO À SAÍDA O CABO DO GIRÃO, SE TORNOU A

DORMIR AOS NAVIOS

Recolhidos aos navios, teve conselho o capitão para descobrir a terra dali para baixo; e assentou-se per parecer do piloto, que deviam de deixar ali os navios e com os barcos descobrir a ilha, por lhe ver muita penedia, dizendo que assim podia ser ao longo da costa; o que parecendo bem ao capitão, logo ao outro dia se meteu nos batéis com os principais da frota, levando mantimentos e todo o necessário.

O capitão ia no batel do navio com o piloto, e do outro deu cargo a Álvaro Afonso; e foram, assim, correndo a costa com brando mar, galherno (sic) tempo e manso vento, em calma a costa toda à beira da terra, e, passada uma ponta que fazia a terra para baixo, ao Ponente, viram, ao pé de uma rocha que entrava no mar, sair dela quatro canos de água que a natureza ali fizera tão formosa, como se fora chafariz feito à mão, onde, tendo o capitão desejo de saber que tal era aquela água, que tão clara parecia, mandou buscar dela e achou-a que era estremada, boa e fria e leve, e daqui levou uma vasilha para o Infante, antre outras coisas que lhe encomendou.

Correndo mais abaixo, sempre apegados com terra, acharam em um fresco vale e ameno prado um ribeiro de água, que vinha sair ao mar com muita frescura; ali fez sair alguns em terra, onde os que saíram acharam outra fonte, que saía debaixo de um grande e antigo e liso seixo, e era tão preciosa e fria, que mandou dela encher outra vasilha para levar ao Infante; e pôs este porto nome (por causa do que nele achou), o porto do Seixo, como hoje se chama.

Indo assim costeando a ilha ao longo do arvoredo, que, em partes, chegava ao mar, passando uma volta que faz a terra, entraram em uma formosa angra, na praia da qual acharam um formoso e deleitoso vale, coberto de arvoredo por sua ordem composto, onde acharam em terra uns cepos velhos derribados do tempo, dos quais mandou o capitão fazer uma cruz, que logo fez arvorar em um alto de uma árvore, dando nome ao lugar Santa Cruz, onde se depois fundou uma nobre vila, a maior, mais rica e melhor povoação de toda a parte de Machico; e é tão nobre em seus moradores, que, a não ser Machico cabeça daquela jurdição, por ser primeiro achada, ela fora cabeceira e a principal de toda aquela capitania, que tão bem assentada está, onde tinha alfândega e oficiais dela.

Passados mais abaixo, em uma (47) parte da terra saíram, por estar tudo cercado de altas rochas e arvoredo, e não viam mais que correntes, ribeiras, fontes e regatos, que, por antre ele, vinham com grande frescura deferir ao mar.

Chegados a uma alta e grande ponta que a terra fazia grossa e alcantilada no mar, acharam nela tantos garajaus, aves do mar, que sem nenhum medo se punham sobre suas cabeças e sobre os remos, que eles tomavam com a mão com que houveram muito prazer e fizeram grande festa e, por esta causa, ficou o nome à ponta do Garajau, que está quatro léguas de Machico para o Ocidente, ou três (como outros dizem); desta ponta descobriram outra abaixo, que seria dali duas léguas, e fazia-se antre estas duas pontas uma formosa e grande enseada de terra mais branda e ares frescos, toda coberta de formoso arvoredo, tão igual, por cima, que parecia feita à mão, sem haver árvore mais alta que outra, e, além de ser muito alegre à vista, vinha beber toda na água, que parecia a Natureza meter todo seu cabedal em perfeiçoar obra tão acabada. Antre este arvoredo igual e espaçoso iam entremeados alguns cedros, tão altos que se divisavam por cima das outras árvores, que eles mui bem conheciam pela experiência que deles atrás tinham, onde acharam muitos.

Capítulo Sétimo 21

Antes que chegassem a este deleitoso vale, foram correndo a costa, que de altas rochas era, sem acharem lugar onde sair, senão em uma ribeira que bota uma pedra ao mar, em que podem desembarcar como em cais; ali mandou o capitão o seu amigo (48) Gonçalo Aires que saísse em terra nesta ribeira, com certos companheiros, e andassem pela terra algum espaço ver se havia nela alguns animais, ou bichos, ou serpentes e cobras venenosas, e não se afastassem da corrente da água para se saber tornar aos batéis, que no mar deixava. Foi Gonçalo Aires com os companheiros correndo a terra por espaço de três horas, no fim das quais se agastava já o capitão com a tardança deles, senão quando eis que assomavam pela ribeira abaixo, com capelas na cabeça e, enramados, vinham falando (49) com muito prazer que

não achavam coisa viva, senão aves; e daqui ficou nome à ribeira de Gonçalo Aires.

Chegados ao formoso vale, que de lisos e alegres seixos era coberto, sem haver outro género de arvoredo, senão muito funcho que cobria o vale até o mar por bom espaço, saíam deste deleitoso vale ao mar três grandes e frescas ribeiras, ainda que não tão soberbas, na aparência, como a de Machico; eram, porém, muito formosas por todas virem acabar no mar, saídas deste vale. E, pelo muito funcho que nele achou, lhe pôs nome o Funchal (onde depois fundou uma vila de seu nome, que já, neste tempo, é uma nobre e sumptuosa cidade), no cabo do qual estão dois ilhéus, onde se foram abrigar por ser já tarde, e tomou em terra água e lenha com que fizeram de cear, em um deles, de muitas aves que tomaram; depois disto foram dormir aos barcos e, como foi manhã, passaram mais abaixo. E, chegados a uma ponta, que no dia dantes tinham visto, mandou o capitão pôr nela uma cruz, donde lhe ficou o nome Ponta da Cruz. Dobrando esta ponta, foram dar em uma formosa praia que, pela formosura e assento dela, lhe pôs nome a Praia Formosa.

Prosseguindo João Gonçalves seu descobrimento pelo modo acima declarado, com seus batéis e companhia, antre duas pontas viram entrar no mar uma poderosa e grande ribeira, na qual pediram uns mancebos de Lagos licença para saírem em terra e ver a ribeira, que espaçosa e alegre parecia. E, ficando o capitão com os outros no batel, os mandou lançar fora pelo barco de Álvaro Afonso, os quais, em terra, cometeram passar a ribeira a vau e, como ela era soberba em suas águas, corria com tanto ímpeto e fúria ao mar, que na veia da água caíram e a ribeira os levava, onde correram sem falta perigo, se o capitão do mar não bradara ao batel de Álvaro Afonso, que em terra estava com a gente, onde eles foram, que corressem depressa àqueles mancebos, que a corrente da ribeira levava, às vozes do qual foram os mancebos acorridos e livres do perigo da água, com que o capitão ficou contente, porque os trazia nos olhos; e daqui ficou o nome à ribeira, que hoje, este dia, se chama Ribeira dos Acorridos, que peor pareceu àqueles mancebos de perto, do que lhe pareceu primeiro de longe.

Daqui passaram mais abaixo até dar em uma rocha delgada, a maneira de ponta baixa, que entra muito no mar, e, entre esta rocha e outra, fica um braço de mar em remanso, onde a Natureza fez uma grande lapa, a modo de câmara de pedra e rocha viva; aqui se meteram com os batéis, onde acharam tantos lobos marinhos, que era espanto, e não foi pequeno refresco e passatempo para a gente, porque mataram muitos deles e tiveram na matança muito prazer e festa, pelo que deu nome a este remanso Câmara de Lobos, donde este capitão João Gonçalves tomou o apelido, por ser a derradeira parte que descobriu deste giro e caminho, que fez; e deste lugar tomou suas armas, que el-Rei lhe deu, tornando ao Regno, como adiante contarei.

Deste lugar de Câmara de Lobos não passaram mais para baixo, assim porque lhe ficavam os navios longe, como porque daqui não puderam ver bem para baixo a costa com o muito arvoredo. Contudo, quando se saíam desta câmara e remanso, da ponta do mar viram uma rocha muito alta, logo aí apegado e arrebentar no mar em uma ponta que ela abaixo fazia, a qual lhe ficou por meta e fim do seu descobrimento, e lhe deram nome o Cabo de Girão (50) por

ser daquela vez a derradeira parte e cabo do giro de seu caminho. Daqui tornaram outra vez dormir aquele dia ao ilhéu da noite passada, onde dormiram nos batéis a ele abrigados, e, ao outro dia seguinte, foram dormir aos navios e, chegando com muito prazer, acharam com muito maior os que neles ficaram, pelos verem tão contentes e satisfeitos da fertilidade, frescura e bondade, que lhe contavam do sítio da ilha e portos que deixavam descobertos, fazendo todos, juntamente, muita festa e dando muitas graças ao Senhor, pela grande mercê que lhes tinha feita.

No documento livro2 (páginas 31-33)