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CAPÍTULO QUADRAGÉSIMO QUINTO ( 325 )

No documento livro2 (páginas 150-161)

DA ENTRADA DOS COSSAIROS NA CIDADE DO FUNCHAL, SEGUNDO A INFORMAÇÃO DOS MORADORES DA BANDA DO NORTE (326)

Os moradores da banda do Norte contam este saco, dizendo que no ano de 1566, a dois dias do mês de Octubro, partindo do porto da vila de Santa Cruz um Diogo Pestana e outros honrados homens com suas mulheres, naturais e vizinhos da ilha do Porto Santo, em um barco do cunhado de um Leonel Gonçalves, defunto, uma quarta-feira pela manhã já clara, com bom tempo, que tinham, chegaram prestes lá aquele mesmo dia e, sendo perto do porto, descobriram oito naus, que estavam ancoradas nele, e, olhando para a vila, viram que ardiam duas casas junto da igreja e, vendo tal novidade, logo suspeitaram o que podia ser, entendendo que eram ingreses luteranos, e disseram ao arrais do barco que os lançasse em uma ponta escusa, que mais para trás está na ilha, porque se queriam pôr onde sabiam que podiam ver o que podia acontecer em tal ensejo.

O arrais, acabado de os lançar em terra, se fez de volta para Santa Cruz por ir dar aviso do que vira. E os franceses das naus os viram, e, tomando prestesmente uma lancha, com gente com seus arcabuzes e mosquetes, os foram seguindo, e os do barco fugindo-lhe à vela e a remos, e, por mais espingardadas e arcabuzadas que lhe atiravam, ainda que sentiam passar por cima de si os pelouros e a vela passada com eles per muitas partes, não quiseram cessar de remar e trabalhar por andar e passar o caminho, indo os cossairos após eles, continuando seus tiros, até que aprouve a Deus se tornaram já cansados de tirar e remar, vendo que nisso nada aproveitavam. E, pela pressa que os franceses lhe davam, chegaram a Santa Cruz a horas da trindade e, com a mesma pressa, o arrais fez saber diante de todo o povo o que passava a Tomé Álvares, Capitão-mor das duas vilas, Santa Cruz e Machico, o qual, vendo em tal coisa, como esta, haver perigo na tardança, acordou de mandar logo o dito arrais no próprio barco e lhe deu uma carta, que escreveu sobre o giolho, para o Capitão-mor da cidade do Funchal, Francisco de Câmara, a quem dizem que se deu às dez horas da noite, e respondeu pela manhã, por lhe não parecer que importava tanto perigo.

Entretanto, o Capitão Tomé Álvares, em Santa Cruz. mandou recado a Francisco Leomelim, ao Porto do Seixo, onde tem seu assento, e a António de Freitas que logo fossem a Machico, e pusessem bom recado na defensão da terra, e que encarregassem ao Ouvidor em tudo, e apercebessem a gente, e tomassem armas, e mandassem, sob pena de morte, que ninguém fugisse, e logo pela manhã fossem ter com ele o dito Francisco Leomelim e António de Freitas, e o Ouvidor ficasse lá com toda a gente e fizesse ir à vila todos os do Caniçal. Tudo isto foi feito e o porto de Santa Cruz todo estava cheio de gente, sem ninguém dormir aquela noite.

Os lugares por onde pareceu que pudessem entrar se atrincheiraram com barcos cheios de pedras, e com traves e pipas e com quanto se pôde haver, em a qual obra nem as mulheres ficaram sem trabalhar toda aquela noite.

Vindo a manhã do terceiro dia do dito mês e ano, as oito (327) naus começaram aparecer pela ponta de S. Lourenço, e, indo a entrar por ela pouco a pouco, enfiadas umas detrás das outras, em carreira, todos estavam cuidando que com eles queriam ter a contenda e, apercebido o Capitão Tomé Álvares com os homens e moços para se pôrem em defensão, animou tão bem a todos, que ninguém ficava que não fosse ao porto e às partes, onde mandava com grande ânimo.

Francisco Leomelim e António de Freitas foram ter com o Capitão-mor, sendo de parecer que se mostrasse a gente toda com bandeiras e recado, por que as naus sentissem que estavam apercebidos e esperando que a gente se repartisse em dois ou três lugares em que podem desembarcar; e logo foi tudo feito. E, porque as naus tinham tempo Nordeste bem

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fresco, mui prestes passaram (328) por direito (329) da vila de Machico, sem fazerem jeito nem

carena de irem sobre eles, e assim estavam já avisados por Francisco Leomelim e o Freitas, de parte do Capitão-mor Tomé Álvares, que, se as naus viessem para baixo e não fizessem jeito de vir sobre o porto de Machico, viessem todos até descobrirem fora da ladeira alta, que está, indo para Santa Cruz; e assim se fez, porque tinham recado que, se o inimigo quisesse tomar porto, ali acudissem todos; pois, vendo assim sua direita rota, os franceses, em suas naus, passaram por Santa Cruz bem desviados do porto, sem mostra alguma de querer tomar terra em toda aquela costa, porque iam mui largos; mas, como foram em direito da ponta do Garajau, puseram as proas direitas à cidade e assim mostravam que iam a ela, o qual visto pelos de Santa Cruz, diziam que sem falta eram navios portugueses, que deviam ir para S. Tomé ou Brasil, e que o arrais não houvera bem visto o que era quanto ao fogo e incêndio das casas no Porto Santo, porque se aquelas naus foram de imigos, como ele dizia. não se foram meter na baía e porto da cidade.

O Capitão Francisco de Câmara, pela manhã, disse ao povo: «Que faremos? Que tenho este recado do Capitão de Santa Cruz e Machico». Andando nisto, se descobriram as oito naus, que não eram pequenas e vindo como direitas ao porto, com carena de o querer tomar, a fim de desaperceber e assegurar os da terra como traziam cuidado; chegando perto dele a tiro de bombarda, tornaram poor (sic), as proas mais ao mar para botar por fora dos ilhéus.

O Capitão, com muitos fidalgos da cidade, e Genobre Chiole (330), o Capitão Aguiar, Favela,

Vieira, João Esmeraldo e muitos mais, que isto viram, estavam dentro do baluarte, onde estava a artilharia. O condestable da fortaleza, que era um português já entrado em dias, grande bombardeiro, disse ao Capitão: «Senhor, estas naus são de ruim título; quero-lhe tirar e lançarei uma no fundo». Disse-lhe o Capitão: «Não hái (sic) para quê, que el-Rei não me manda atirar às naus que passam, tirai-lhe um tiro por alto, farão salva, que ainda parece que vão a pousar». Tirou-se o tiro e nenhuma delas respondeu (331), mas logo começaram de se arredar; o condestable lhe tornou a replicar lhe desse licença para lhe tirar, que bem visto era serem de ruim título, e que lançaria ao fundo a qualquer que desse e que detrás de um tiro fosse outro; ao qual não quis consentir Luís da Guarda, meirinho, que, pelo Capitão, aquela hora foi mandado aí para defender ao condestable que não atirasse, o primeiro homem que, depois, nesta fortaleza, ao entrar dos franceses, por saltar do próprio baluarte do muro em baixo, fugindo, ficou sem vida. O Capitão Francisco Gonçalves, com ajuntar e pôr em ordem alguma gente, gastou toda a manhã.

Estavam surtas três naus, uma que ia (332) para S. Tomé, grande, e duas para o Brasil, com mais uma caravela de Setúval, que de partida estava para o Regno, cujo senhorio e piloto era um bom homem falto de um olho. A nau de S. Tomé tinha muita gente e honrado e valoroso capitão, e as duas naus do Brasil o mesmo. Pediram estes capitães a Francisco Gonçalves de Câmara que, se não tinha armas em abastança para a gente da terra, que eles lhe dariam muitos piques e arcabuzes, e o mesmo os do Brasil, ainda que não estavam tão apercebidos, e que aí estavam com suas pessoas e armas ao seu serviço, pois nisso serviam a el-Rei Nosso Senhor; Francisco Gonçalves disse que o aceitava, se lhe fosse necessário.

E, como as naus passassem abaixo já dos ilhéus neste tempo e fossem perto de terra, suspeitando os da ilha o que podia ser, se foram, gente de cavalo e de pé, direitos à Praia Formosa, onde viram perto de terra ancorar as naus, e, como já os soldados vinham em as lanchas às ilhargas das naus, logo vieram a saltar em terra em o areal da Praia Formosa. Saídos os soldados, os capitães lhe deram ordem que fossem saindo um ruim passo que tinham de subir; ali, subidos poucos e poucos, começaram de subir por uma das ladeiras daquele vale, que ali se faz; o Capitão-geral, vendo das naus ir gente de cavalo e de pé, ali, sobre aquele vale, acabou mui depressa de lançar em terra o resto que ficava; os da terra não faziam mais que chegar ao cabo do vale e, como vissem os soldados franceses armados, se tornavam a recolher para trás, dando recado uns aos outros.

Chegou nova à cidade como eram em terra os imigos, armados de armas brancas, arcabuzes e grande estrondo, com que os da terra perderam o tino, sem se acordarem de fazer, nem ajuntar gente, nem mandar tirar das naus as armas que lhe davam e resistir ao encontro que se lhe oferecia; o Capitão Francisco Gonçalves de Câmara mandou pôr três peças de falcões perto de S. Pedro, sem poder ter a gente que não fugisse.

Deu grande ousadia aos franceses ver que chegavam os da ilha a olhar, à boca do vale, por onde iam ganhando terra e tornavam para trás; assim, cobravam logo a portela, descobriram

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os caminhos das serras e do mato cheios de gente fugindo. Como isto viram, o seu Capitão- mor perguntou a alguns portugueses, que traziam consigo, que vizinhança podia ter aquela cidade; disseram-lhe que não passava de mil e duzentos; pois disse ele: «Eles vão fugindo para a serra, vamos nós entrar na cidade, quem vola quita»; e, assim, foram logo marchando com boa ordem; em pouco espaço chegaram à ponta da Grota e ribeira de S. Pedro; ali lhe tiraram da outra parte, onde a artilharia estava assestada (333), que era um pedreiro e dois

falcões, e, como o Capitão ouviu o tiro e sentisse que havia artilharia, tornou atrás, sem virar as costas, senão assim com o rosto em os portugueses, e todos os seus fizeram outro tanto. E não tardou muito que lhe não tirassem outro tiro e, assim, tornou atrás outras três ou quatro passadas e, daí a pouco, viu pôr fogo a outra peça e não disparou; e esteve mais espaço que dantes, aguardando se lhe tiravam, o qual nunca mais fizeram; então, conhecendo que não tinha contradição, nem quem lhe resistisse, disse: «Avans, avans (sic), que se agora non la

pilhas, non la pilharás». E mais vinha este Capitão sem armas, só com um montante nas mãos,

esgrimindo, e animando os seus, e dizendo: «Avans, avans», com um pequeno ferraguello (sic) (334) de grã, brochado ao pescoço; e, movendo a bom passo todos detrás, depôs seu Capitão

em ordem, a caravela, que surta estava no porto, que era do homem falto do olho, de Setúval, que os viu mover à pressa, que bem se descobriam do porto e ancoradouro, lhe tirou com uma peça um tiro, e o pelouro deu em uma pedra de penedo junto do caminho, e das rachas, que saíram, uma chegou a dar em um dos giolhos do Capitão e lhe fez tal dano, que daí a três ou quatro dias, pouco mais, morreu na fortaleza, porque lhe entraram os herpes.

Vindo, assim, toda esta gente a entrar já na ribeira de S. Pedro, ordenou o Capitão de repartir os seus em três partes: mandou duas bandeiras por cima de um outeiro, que sobe pela ribeira, que se faz à banda do Norte, e uma pequena subida por detrás do outeiro (caminho e segredo que poucos da terra sabem, descoberto por algum natural, que consigo traziam, ou por um Gaspar Caldeira, africano, natural de Tânger, que depois, por ser guia destes cossairos, foi morto por justiça em Lisboa (335), e outras duas bandeiras mandou por baixo de

toda a cidade, que é por Santa Caterina e por S. Lázaro; e ele, com quatro bandeiras, pelo direito caminho da Carreira, por onde a artilharia estava desamparada de capitão e gente. Já a este tempo Francisco Gonçalves de Câmara, com mais de trezentos homens da terra e das naus, estavam recolhidos a sua fortaleza, e muitas mulheres honradas da cidade com eles.

Vindo o Capitão francês caminho direito, sem fazer caso da ferida de sua perna, viu vir uma procissão de frades franciscos, com cruz levantada, direito a eles, que o comissário, chamado Fr. Baltezar Curado, mandou, e o que trazia a cruz era um animoso varão, que em Mazagão havia feito façanhas contra os mouros, chamado Fr. Álvaro de Miranda. Levando este padre a cruz, assim levantada, o Capitão lhe mandou tirar às arcabuzadas a todos, o que vendo os frades, viraram com a cruz e, indo-se acolhendo, deu um pelouro a Miranda por detrás do toutiço e saiu-lhe pelos olhos, com que logo caiu morto, e deram em outros cinco frades e todos morreram à saída da rua da Carreira dos Cavalos.

Os imigos, que foram por baixo, deram na casa de Gaspar Correia, grande rico, que, de perto do muro da fortaleza, acabava, então, de chegar a ela, o qual, defendendo a entrada como bom cavaleiro, morreu, matando-o seus imigos, e não entraram por aquele passo arriba, que faz ali um topo, até ele morrer bem a sua porta.

A este tempo, os que vieram por cima, também, à subida daquele passo, lhes teve o encontro um esforçado cavaleiro, chamado Gaspar de Braga, o qual, até o matarem, ninguém pôs o pé em cima de todo, e ele feriu e matou alguns; e como era só, e os imigos lhe tiravam todos, lhe acertaram dar por um lugar, que logo caiu morto.

Estes, subidos, foram por o moesteiro das freiras, que no caminho estava, e, vendo que estavam ainda dentro, se puseram a querer entrar com elas. Tem este moesteiro à porta da portaria um espaçoso pátio, que toma as portas da igreja, assim a travessa como a principal; este pátio tem só uma porta à parte do Nordeste, com muro tão alto, que não podem entrar por ele senão pondo-se um homem sobre os ombros de outro, não havendo escada; acertou um homem chegar, então, a socorrer as freiras em aquela necessidade, que estavam já com a porta aberta para saírem, fugindo, e o Padre Curado com seus frades, que escaparam do moesteiro, metido em um canavial de açúcar, perto deste moesteiro das freiras. Vendo este homem que os franceses desciam pela costa abaixo, fechou e trancou muito prestes a porta do pátio, e, não na achando aberta os franceses, nem a podendo derribar, que era forte e estava bem trancada, subiram uns sobre os outros para saltar lá, onde este homem só no pátio estava; o qual, como os via assomar, lhe atirava com pedras, que com as unhas arrancava da

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calçada do pátio, pelo que ninguém lhe entrou dentro, ainda que por muitas partes foi cometido, té que já sendo as outras companhias chegadas à fortaleza, que daquele lugar bem se via, deixaram esta contenda e se foram ajuntar com os outros.

E, assim, começaram dar logo tais surriadas à fortaleza com sua arcabuzaria, que ninguém que estivesse dentro ousava aparecer, por que melhor e mais à sua vontade as dessem; assim, entraram nas casas de Manuel Damiel e nas das Gamas, uma das quais é agora mulher de Francisco Mendes Pereira, contador que foi (336) da Fazenda de el-Rei nesta ilha de S.

Miguel. E, como daqui varejassem bem o cubelo e as mais partes do forte, tiveram lugar de subirem muitos soldados franceses sobre o muro, que não era mais alto que doze palmos por aquela parte de além da porta do baluarte, que é a banda do Norte; e, como foram dentro ou em cima do andor do muro, puderam bem tirar de arcabuzadas aos que estavam com as peças de artilharia aguardando a entrada da fortaleza, os quais, vendo os franceses em cima, desampararam aquele lugar, e, como já desconfiados de remédio, se acolheram com as mulheres dentro nas casas do Capitão, que antre elas andava em pé, dando a cada um lugar conveniente, e aos estrangeiros nas lójeas das casas de baixo, onde estiveram até à morte.

Desamparado já aquele lugar, os franceses desceram abaixo pelas escadas de pedra e, atirando às portas, entrou o Capitão primeiro e foram direitos onde estavam os tiros, e Luís da Guarda, meirinho, saltou do muro para a banda do mar, que mais baixo era, e, por ser homem grande e pesado, arrebentou e acabou. Mataram o condestable, com o seu botafogo na mão e, não havendo ali mais que fazer, se foram às lójeas, em que os estrangeiros estavam, assim os daquelas naus, que muitos eram, como outros, onde foram todos mortos à espada, senão só um Gago de Frias, da Vila Franca, desta ilha de S. Miguel, que tinha uma bolsa com treze mil réis, que lhe deram a guardar os Quintais, homiziados pela morte de um homem, que mataram, descendo para a praia da dita vila, o qual Gago disse ao Capitão-geral: «Senhor, não me mates; vês aqui esta bolsa com muito dinheiro», ao qual o Capitão disse: «Não hajas medo; apega-te neste meu talabarte», e, apegando-se por detrás, ia o Capitão adiante, como um Satanás, andando feito grande carniceiro, acabando de levar a vitória té o fim.

Morreram naquelas lójeas duzentos e cinquenta homens e, antre eles, dois clérigos, letrados portugueses, que iam em a nau S. Tomé, e o capitão dela com todos os seus, e um honrado homem, letrado, jurista, e outros. Acabados de meter a cutelo estes de baixo, subiu o Capitão com a espada ensanguentada diante dos seus arriba, onde começou a matar, e sempre o Gago pegado ao cinto e a bolsa ao pescoço, como preço de seu resgate e vida na mão, e, como fosse matando alguns, que diante e às ilhargas via, chegou a uma grande sala, onde as mulheres estavam todas, honradas, pedindo misericórdia, e o Capitão Francisco Gonçalves da Câmara antre elas, ao qual o Capitão francês tomou pela mão e lhe quis dar com a espada, mas as mulheres disseram: «Senhor, não o mates, que é o Capitão»; e logo o Capitão francês cessou de ferir e matar e assegurou as mulheres que não houvessem medo, entregando ao Capitão Francisco Gonçalves a guarda delas. E ali escapou um frade sem barba, ainda que era já velho, chamado Medina, vestido e toucado como mulher, antre as mulheres.

O Capitão deu a guarda da fortaleza a um seu sobrinho, e, então, disse ao Gago:

«Companhão, da-me el tu dineiro»; tirando o Gago a bolsa pela cabeça, lha deu. O Capitão,

vendo aqueles treze mil réis todos em ouro, o tomou pela mão e lhe deu um lenço, dizendo que o trouxesse na mão solto, para que ninguém lhe fizesse mal, mandando dali, donde estava, que lançassem bando que começassem o saco da cidade antes da uma hora depois de meio dia, e ele se curou de sua ferida do giolho.

Dentro da fortaleza se acharam mais de trezentos homens mortos, por todas as casinhas, os quais mandou o Capitão enterrar fora, logo aquele dia, em grandes covas, no adro de S. Francisco e dentro da igreja.

As freiras e o Curado, com alguns frades e o homem que as defendeu, enquanto isto do baluarte passou, saíram por antre os canaviais e se acolheram e não pararam até o seu Curral, que dista bom pedaço da cidade, e, assim, se foram, deixando tudo no moesteiro, sem salvar nenhum ornamento; salvo a custódia do Santíssimo Sacramento, que um padre comungou, e alguns cálices, que puderam levar nas mangas, tudo o mais foi roubado.

No mosteiro dos frades ficou o vigairo da casa, chamado Fr. João dos Reis, e o sancristão, que era sacerdote de missa, mui bem disposto mancebo e bom religioso, natural de Portalegre, chamado (me parece) Fr. Rodrigo de Portalegre, os quais ficaram na casa por não terem lugar

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de se saírem, porque estiveram escondendo o tesouro em um lugar que ninguém dera com ele; e, acabando de esconder, deram os franceses com eles, e o sancristão se acolheu rijamente à torre dos sinos e o vigairo à sua cela, porque era velho, fazendo conta que por tal escaparia da

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