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CAPÍTULO NONO

No documento livro2 (páginas 35-39)

CAPÍTULO NONO

DA DESCRIÇÃO DA ILHA DO PORTO SANTO E DA ABUNDÂNCIA E MORADORES DELA (53)

A ilha do Porto Santo é pequena, mas fresca, de bons ares e sadia, ainda que não tem boas águas, por ser seca e de pouco arvoredo, e o principal (tirando os dragoeiros) é zimbro e urze. Está no caminho, quando vão de Lisboa para a ilha da Madeira, da qual está vinte léguas de porto a porto, quero dizer, do porto da Vila ao porto do Funchal, e de terra a terra são doze léguas. Está em trinta e três graus de altura, da parte do Norte. É pequena e quase redonda, de três léguas de comprido e uma e meia de largo, ou pouco mais. Está Nordeste Sudoeste sua compridão, que começa do porto das Cagarras, que está da parte do Oriente, ao Nordeste, até o ilhéu do Boqueirão, que está da parte do Ocidente, ao Sudoeste. E a largura pelo meio é da Vila, que está da banda do Sul, até a Fonte da Areia, que cai da banda do Norte; e quase toda é da mesma largura. E demora esta ilha Nordeste Sudoeste com os Cachopos e está de Lisboa cento e quarenta léguas.

No porto das Cagarras, assim chamado por haver ali na rocha muita criação delas, que está da banda do Oriente, ao Nordeste da ilha, vem ter ao mar de longe uma ribeira salgada; dele vindo, pela banda do Sul, para o Ocidente, perto de uma légua está uma enseada pequena, onde aboca uma ribeira de água salgada, ainda que vem de longe, dantre umas serras, e aqui chamam o porto dos Frades, pela razão já dita, e é bom porto.

Do porto dos Frades, pouco mais de meia légua, indo para o Ocidente pela mesma parte do Sul, está um ilhéu grande e redondo, meia légua afastado da terra, Norte e Sul dela, e alto das rochas todo à roda, que tem em cima grande campo, como de dois moios de terra, onde há muitos paus de dragoeiros, e por isso lhe chamam o ilhéu dos Dragoeiros; tem também zambujos, e criam-se nele muitas cabras, cagarras e coelhos de diversas cores.

Deste ilhéu dos Dragoeiros, a meia légua a Loeste, pela mesma banda do Sul, está um penedo grande e redondo como ilhéu pequeno, que (parece), por ali alguém se deitar a dormir, se chamou antigamente o Penedo do Sono, o qual está quase pegado na terra, porque de maré vazia fica em seco, e do porto das Cagarras até este penedo são tudo rochas altas e penedia ao longo do mar.

Do Penedo do Sono até ao ilhéu do Boqueirão, que será espaço pouco mais de légua e meia, que é a ponta derradeira do Poente da ilha, é tudo areia branca, sem ter nenhuma pedra, e é baía não muito curva, nem com grandes pontas ao mar, porque com qualquer tempo podem sair os navios do porto da Vila, que está no meio desta baía e praia, que, pela razão do porto já dita, se chama a Vila do Porto Santo, a qual tem a freguesia do Salvador, sem haver outra em toda a ilha, e a ela vêm ouvir missa todos os moradores, ainda que tenham sua habitação em diversas partes dela. E, antes de chegar à Vila, todas aquelas terras até a mesma Vila eram povoadas de dragoeiros quando se achou a ilha; chama-se ali o Vale do Touro, por se criarem nela touros e muito gado desde o princípio, quando o deitaram na terra.

Nesta Vila do Porto Santo, que está, da parte do Sul, no meio da praia já dita, não estão as casas perto do mar por causa da areia, que as atupira logo, mas haverá do mar às primeiras um tiro de besta. Terá a vila, pouco mais ou menos, quatrocentos fogos, afora outras pessoas que moram pelos montes, e, além da igreja, que é freguesia da Invocação do Salvador, que é boa, tem uma ermida de São Sebastião e outra de Santa Caterina. Está situada em terra chã e, pelo meio da Vila, corre do Norte ao Sul uma ribeira, todo ano, de água salgada, quase como a do mar, e, ainda que tal, regam com ela muitas hortas de couves e da mais hortaliça, que é estremada no gosto, posto que seja regada com água que o não tem. E ao longo desta costa, ainda que seja de areia, há muitas vinhas, que dão boas uvas; criam-se nelas muitos caracóis

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brancos, em tanta maneira, que, em partes, cobrem tanto o cacho das uvas, que lhe não aparece bago. Têm estas vinhas, da banda do mar, por tapumes muito bastos e altos espinheiros alvares, que se criam na areia, e, ainda que com o vento se atupam dela, crescem muito, por onde é bom tapume, e neles se embarram muitos coelhos, de que toda a terra é muito povoada, e com fisgotes e dardos os fisgam e matam nos espinheiros, onde também se criam muitas mélroas que fazem muito dano nas uvas e nas amoras, porque há ali muitas amoreiras e figueiras, de diversas castas, cujo fruto, por a qualidade da terra e por o deixarem bem madurecer, tem bom gosto.

Da Vila até ao cabo da praia, ao Ponente, desta mesma banda do Sul, haverá três quartos de légua; e no cabo da mesma praia, afastado de terra um tiro de besta, está um ilhéu alto das rochas, que tem meia légua de comprido e em cima grande chã de terra, onde criam muitos coelhos de diversas cores; e o mato dele é zimbro. Chama-se Boqueirão o espaço que há deste ilhéu à terra, por ser perto dela, e aqui, neste lugar do Boqueirão, que está ao Ponente, é o fim da compridão da ilha pela banda do Sul.

Indo derredor da ilha, pela banda do Noroeste, quase duas léguas deste ilhéu do Boqueirão está outro ilhéu pequeno, que se chama o ilhéu do Ferro, parece por se achar ali algum metal de pedra que se parecia com ele, ou por outra qualquer razão que seja; criam-se nele muitas cagarras e cenouras; não tem mato notável.

Indo voltando ao Norte quase duas léguas, correndo antre este ilhéu do Ferro e o seguinte, é a terra redonda; está outro ilhéu pequeno e muito alto das rochas perto da terra, que se chama o ilhéu da Fonte da Areia, por estar defronte de uma fonte, que sai no meio da rocha, de muito grossa água, que é doce, boa e sadia e de bom gosto, a qual rocha, desta parte, é de areia branca, e por isso se chama a Fonte da Areia, da qual bebem os moradores da vila, ainda que esteja légua e meia afastada do lugar da banda do Norte e tenham em outras partes água de poços, que não é em tanta abastança como esta, que, com a terra ser chã por aquela parte, é de bom serviço, e dela bebe o povo quase todo.

Do ilhéu da Fonte da Areia, menos de meia légua adiante, está para o Nascente, da parte do Norte, uma povoação de até quinze moradores, que se chama o Farrobo, por haver ali esta erva, assim chamada, com que os pescadores tingem as linhas com que pescam, onde se criou o profeta fingido que chamam do Porto Santo, como adiante direi.

Do Farrobo até a serra de Gilianes (que foi um homem antigo, que fez ali a primeira povoação, de que lhe ficou o nome) haverá meia légua. E da serra de Gilianes à Fonte dos Pombos haverá uma légua. Esta fonte está perto da rocha do mar, da banda do Norte; é de pouca água doce e chama-se Fonte dos Pombos por respeito de haver ali muitos para aquela parte, e parece que bebiam nela; mas esta água não serve senão para pastores, por estar muito longe da Vila.

Da Fonte dos Pombos, andando derredor até o Porto das Cagarras, onde se começa a compridão, haverá outra légua, porque, ainda que de diâmetro direito tenha esta ilha três léguas e meia de comprido, todavia, torneada ao redor com suas voltas, tem mais compridão. Mas, cortando a comprido pelo meio, quase por linha direita, tem de compridão as três léguas e meia, que disse; e indo do Porto das Cagarras, caminhando por dentro dela para o Ocidente até direito da Fonte dos Pombos e o pico do Castelo, que será légua e três quartos, tudo são picos e terra alta, mais de criações e matos de zimbros que terras lavradias, e é tudo massapés. E perto da Fonte dos Pombos, para a banda do Ponente, está um pico alto, de grossa penedia, que não tem mato, mas por a faldra o tem muito e grosso de zimbro, e ao pé uns grossos moledos de penedia branca, como baça, que parece não haver sido queimada, porque é lisa, e antre estes penedos há uma fonte de estremada água doce e boa, acompanhada de muitas rabaças; chama-se a Fonte dos Jaspes. Não sei se lhe puseram este nome por razão dos penedos, que quase brancos e lisos são e têm alguma aparência com eles; antre os quais penedos há muita norsa, que custa muito trabalho em revolver estes penedos para se poder dali tirar (54) e comer.

Esta norsa, que há no moledo da Fonte dos Jaspes, é uma fruta que se cria debaixo daqueles moledos (como antre penedos e biscoitos de pedra branca, uns muito grossos e outros pequenos, e a fonte, que ali está junto deles, onde vão caçar e folgar muitos àquela montanha); é fruta da feição de betatas (sic) e o gosto como de inhame, e da mesma humidade e viscosidade de inhame; e os braços que deita a erva, que dá esta fruta, são como os da erva que chamam legacão ou de hera, e as folhas também são semelhantes. Nascem muitas antre

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aqueles moledos, mas não são inhame, por não ter a folha e o braço tão grande, nem o talo tão grosso, nem são betatas, porque, ainda que têm alguma semelhança delas, têm diferença no gosto e substância e parecer de fora, porque criam umas escamas, como lepra, por cima, e deitam de si um humor viscoso, como inhame, o que não têm as betatas.

Indo desta Fonte dos Jaspes para a Vila, tudo são matos de zimbro e barbuzanos, zambujos e marmulanos, que dão fruto, como baga de louro, a qual, madura, é boa para comer, ainda que tem muito leite.

E, por este caminho, vindo sobre a Vila meia légua dela, ao pé de uma serra alta, que chamam a Feiteira, por ter muitos feitos, está uma igreja de Nossa Senhora da Graça, muito devota, e, apegadas nela, três fontes de boa (ainda que pouca) água, que vão buscar, à cabeça, da Vila e doutras partes.

E, tornando da Vila para o Norte um quarto de légua, nascem dois ou três olhos de água salobra, onde está feito um tanque grande para nele beberem os gados e alimárias de toda a sorte da maior parte da ilha, que se criam muito por toda ela, como é gado vacum, ovelhas e cabras, porcos e éguas, de que têm bons cavalos, e bestas muares e asnais, por ser a terra de bom pasto; a qual água salobra, que sai deste tanque, serve também para uso do serviço e lavagem da terra, e principalmente da Vila, e perto deste tanque estão umas matas (que assim têm o nome, porque tinham mato carrasquenho e são como os biscoitos desta ilha de São Miguel), em que há muitos cardos de espinhos de muito bom sabor, os quais, alporcados, vendem bem baratos, por a terra em muitas partes ser deles muito povoada.

Acima destas matas, ao Norte, estão umas chãs de terra, que chamam as Areias, por ser terra misturada com areia, que traz o vento daquela banda da Fonte da Areia, por serem as rochas daquela parte dela (como já disse), e estas terras dão muita e boa cevada, e acontece muitos anos dar um moio de cevada de semeadura nestas areias sessenta moios de colheita; também dão muito centeio e trigo, mas são mais naturais para cevada e centeio.

Da mesma Fonte dos Jaspes, indo para o Ponente, está no meio da ilha um pico muito alto e redondo, que é o mais alto da ilha, todo até o cume coberto de mato de zimbro, e em cima, no mais alto, faz um assento de terra pequeno, de quantidade de um quarteiro, onde se fizeram antigamente muitas casas de pedra e barro, que já agora estão arruinadas, as quais os moradores da ilha ali edificaram para nelas se acolher, como acolhiam, sendo cometidos dos castelhanos, quando havia guerras antre Portugal e Castela. Está este pico uma légua da Vila e chama-se do Castelo pela razão já dita e porque, na verdade, o é ele mui forte e defensável e dele se podem defender a todo o mundo. Dele até a Vila há umas terras muito chãs, mas a subida ao pico é de trabalhoso caminho; e estando no meio da ilha, dele para a banda do Ponente, passando pelo Farrobo até o ilhéu do Boqueirão, que é outra légua e meia, toda a terra é baixa, chã e golfeira, que do Sul ao Norte toda se lavra e dá muito pão, sendo dele para o Nascente tudo montes, serras e matos, e a terra, pela maior parte massapez, quase toda da qualidade de Alentejo.

Finalmente esta ilha do Porto Santo é mui sadia, de bons e frescos ares, ainda que é pequena, de três léguas e meia de comprido e uma e meia de largo, pouco mais ou menos (como já disse); e não tem águas, por ser seca e de pouco arvoredo, e o principal (tirando os dragoeiros) é zimbro e urze. E em muitas partes desta ilha produziu a Natureza muitos dragoeiros, do tronco dos quais se faz muita louça, e muitos são tão grossos, que se fabricam de um só pau barcos que hoje em dia há, que são capazes de seis, sete homens, que vão pescar neles, e gamelas que levam um moio de trigo. Tira-se desta louça bom proveito, de que se paga dízima a el-Rei, e se aproveitam muito do sangue do dragão, muito prezado nas boticas; criam estes dragoeiros uma fruta redonda que, madura, se faz muito amarela, e é mui doce, e no tempo que havia muitos dragoeiros engordavam os porcos com este fruto (que são como avelãs e, assim, se chamavam maçainhas); já agora há poucos e vão faltando, pelo muito proveito que se fazia nas gamelas deles, que são muito leves, como são secas, e também nas rodelas.

E, como já disse, pela maior parte da ilha, especialmente para a banda das serras e terras de massapez, há muitos cardos para comer, e soía a valer um saco deles um vintém, alporcados e muito doces, em alguns postos da terra. Tem também esta ilha, além das aves domésticas, muitas perdizes, e pombas, e coelhos, e rolas, poupas, e francelhos, lagartixas, e ratos pequenos, dos que cá chamamos morganhos, sem haver nela dos grandes, que quase em todas as terras vemos.

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Foi povoada esta ilha de gente fidalga e nobre, cujos apelidos são Perestrelos ou Palestrelos, como outros dizem, Calaisas, Pinas, Rabacais, Concelos, Mendes, Vieiras, Crastos, Nunes, Pestanas, e de outras muitas nobres gerações.

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