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12a natureza locativa subjacente das constru-

Posse e existência em três línguas de sinais 1,

12a natureza locativa subjacente das constru-

ções possessivas e existenciais. Ele aponta a existência de uma longa lista de proformas com origens locativas usadas na expressão de existência no francês, catalão, italiano, es- panhol, árabe e samoano falados, bem como do sujeito locativo lexical there usado nas ex- pressões existenciais do inglês.

Embora as línguas sinalizadas e faladas compartilhem um grande número de carac- terísticas fundamentais, sabemos que elas di- ferem em aspectos importantes. Não é nossa intenção, ao citar a análise de Freeze (1992), insistir na estrutura sintática específica que ele propõe. Ao invés disso, nós a tomamos como um modelo útil para a investigação sistemática de relações subjacentes plausíveis entre construções possessivas, existenciais e locativas nas línguas de sinais. Nos últimos anos, diversos pesquisadores apontaram evi- dências para essa relação em várias línguas de sinais. Kristofferson (2003) observa que na Língua de Sinais Dinamarquesa, todas as construções possessivas, existenciais e loca- tivas usam o mesmo verbo e são diferencia- das apenas pela ordem dos sinais (base-figura para as construções possessivas e existenciais e figura-base para as locativas). Mais recente- mente, Ulrike Zeshan e seu grupo de pesqui- sa deram início a um projeto de comparação tipológica interlingüística das expressões pos- sessivas e existenciais em línguas de sinais, en- focando a relação entre essas duas construções em mais de vinte línguas de sinais, incluindo as Línguas de Sinais Finlandesa e Flamenca (De Weerdt & Takkinen (2006)), a ASL (Chen Pichler & Hochgesang (no prelo)) e a ÖGS (Schalber & Hunger (no prelo)). Ao analisar- mos as construções possessivas e existenciais coletadas para o presente projeto, nos pergun- tamos que evidência poderia haver nelas para a

existência de uma estrutura locativa subjacen- te nas construções possessivas e existenciais na ASL, na ÖGS e na HZJ. Até agora, acreditamos que dois aspectos particulares de nossos dados apresentam características locativas: o uso re- corrente do espaço (com pontos de locação e classificadores) e o fato de que alguns dos pre- dicados que observamos são plausivelmente derivados de sinais locativos.

De novo, sabe-se que a organização es- trutural das línguas de sinais diverge da das línguas faladas em muitos aspectos e é impor- tante levar tais diferenças em consideração, ao se buscar estender para as línguas de sinais, análises originalmente desenvolvidas para línguas faladas. A análise de Freeze (1992) de- pende de uma locução prepositiva na posição de complemento verbal em construções pos- sessivas e existenciais e é nessa LP que as ca- racterísticas locativas dessas duas construções se originam. As preposições explícitas do tipo comum nas línguas faladas são bastante raras nas línguas de sinais que estudamos (e talvez nas línguas de sinais de um modo geral). En- tretanto, encontramos informações locativas codificadas pelo uso do espaço. Por exemplo, todas as três línguas do nosso estudo usam a apontação (inclusive para pronomes pes- soais) para expressar posse e existência. Na medida em que uma apontação usada como pronome pessoal indique a locação de um possuidor (por exemplo, à la Liddell 2003), esse uso pode ser entendido como a codifica- ção do possuidor enquanto locação humana, segundo a abordagem de Freeze (1992). Além disso, embora ainda não tenhamos dados re- levantes da ÖGS ou da HZJ, a ASL permite a expressão de posse usando não mais do que o deslocamento de sinais no espaço em direção aos loci dos possuidores, como no exemplo citado anteriormente em (20).

Deborah Chen Pichler e outros

Questões T

eóricas das P

esquisas em Línguas de Sinais

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Quanto às expressões de existência, o uso da apontação ilustrado no exemplo (34) constitui um terceiro exemplo de uma carac- terística locativa. Observe-se que essas cons- truções são ambíguas, permitindo tanto uma leitura existencial (there is no money on the

table) quanto uma leitura mais diretamen-

te locativa (The money is on the table). En- contramos a mesma ambigüidade (também observada por Kristofferson (2003) para a língua de sinais dinamarquesa) nas constru- ções classificadoras de base-figura, como nos exemplos (29), (35) e (41), [que constitui] outra estrutura alternativa usada na ASL, na ÖGS e na HZJ para expressar existência. Se nos dispusermos a considerar a locução no- minal que representa a base nestes exemplos (i.e. TAXI, WALL ou RAUM) como uma lo- cação, e a locução nominal que representa a

figura (i.e. REIFEN, HOLE ou 25 SESSEL)

como o tema, essas estruturas podem até ser submetidas à análise sintática proposta por Freeze (1992), segundo a qual uma locação ocorre como “sujeito” gramatical (mas não necessariamente conceitual) da oração.

Também foram insuficientes as evidên- cias que obtivemos para sustentar a hipóte- se de uma relação diacrônica entre as cons- truções locativas, possessivas e existenciais. É evidente o fato de que o verbo usado em construções possessivas e existenciais na ÖGS permite uma glosa locativa (here). Schalber & Hunger (no prelo) mostram que, o sinal DA, usado em construções existenciais, indi- ca a presença concreta e a locação do obje- to ao qual se atribui existência e pode até ser substituído por um sinal de advérbio de lugar como HIER here. É interessante notar que a forma atual do sinal DA mostra uma notável semelhança com o sinal MJESTO place usado na HZJ (o sinal HZJ acrescenta uma configu- ração de mão “B”). A existência de laços his-

tóricos entre a HZJ e a ÖGS pode ser expli- cada pelo fato de que crianças croatas surdas foram enviadas à Áustria para estudar no fim do século XIX. De modo análogo, na HZJ, o verbo existencial alternativo POSTOJATI to

exist pode ter origens locativas, dada a sua se-

melhança superficial com o sinal da HZJ para STOJITI, que significa aproximadamente “estar localizado em”. O sinal é claramen- te locativo, permitindo o deslocamento no espaço para indicar a locação do objeto em questão. É claro que esse tipo de comparação etimológica é um tanto quanto especulativa, porém nós a citamos aqui como uma evidên- cia secundária, como o faz Freeze ao discutir a (igualmente sugestiva) evidência diacrônica das origens locativas das construções posses- sivas e existenciais nas línguas faladas.

5. Conclusões

O objetivo inicial deste estudo foi descrever e documentar construções possessivas e exis- tenciais na ASL, na ÖGS e na HZJ. Ao ana- lisar nossos dados, observamos semelhanças entre essas três línguas quanto às estruturas sintáticas empregadas para expressar posse e existência, bem como uma visível restrição com relação a quais dessas estruturas podem ocorrer com possuidores inanimados e cer- tos casos de posse inalienável (por exemplo, posse de parte do corpo). Nesses casos, tan- to as locuções nominais possessivas quanto os predicados possessivos tendem a não usar um pronome possessivo explícito. Supomos que tal restrição possa decorrer do fato de que a posse é, em sua expressão mais canôni- ca, uma relação entre um possuidor animado e um possessum inanimado, e que essa relação particular é enfatizada pelo pronome POSS explícito.

Posse e existência em três línguas de sinais

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