• Nenhum resultado encontrado

10b) The meeting (*went) was changed from

A realização morfológica dos campos semânticos

10b) The meeting (*went) was changed from

Tuesday to Wednesday [A reunião (*foi)

foi mudada de terça-feira para quarta-

feira.

(JACKENDOFF, 2002, p. 359)

Outra diferença entre os campos está na variedade de preposições que podem ser usadas. O campo semântico espacial permite distinções graduais mais finas (exemplifica- das em 8), enquanto outros campos são mui- to mais restritos (9-11).

8. He went to/towards/in the direction of/clo-

ser to the hill [Ele foi para a/rumo à/na di-

reção da/mais perto da colina].

9. He gave the book to/*towards/*in the di-

rection of/*closer to Tom [Ele deu o livro

para/*rumo a/*na direção de/*mais perto de Tom].

10. The light changed to/*towards/*in the di-

rection of/*closer to green [A luz mudou

para/*rumo ao/*na direção do/*mais per- to do verde].

11. The meeting was moved to/ closer to

/*towards/*in the direction of Monday [A

reunião foi mudada para/*rumo a/*mais perto de/*em direção a segunda-feira].

Jackendoff atribui esta diferença à na- tureza do campo semântico em questão. Ele afirma (ibid., p.361) que posse, por exemplo, diferentemente de espaço, é descontínua; não existem pontos intermediários entre um possuidor ou outro. Conseqüentemente, os únicos pontos especificáveis na ‘trajetória’ de posse são os pontos iniciais e finais, ou seja, o possuidor anterior e o possuidor futuro.

Assim, vêem-se os efeitos dos campos semânticos em português, principalmente no tipo de argumentos e possíveis inferên- cias, nas escolhas lexicais e em alguns aspec-

tos da estrutura sintática das sentenças. Não há efeito algum na forma dos verbos. Agora passamos a considerar uma língua em uma modalidade diferente, a modalidade visual- espacial, e examinamos os efeitos dos campos semânticos nesta língua. Minha tese é que em línguas visual-espaciais, ilustradas aqui pela LSI, os efeitos de campo semântico são tam- bém manifestados na morfologia dos verbos. A razão disso é que cada campo semântico tem propriedades morfológicas distintas, que determinam, pelo menos, algumas das pro- priedades morfológicas dos verbos e predica- dos naquele campo. Essas propriedades estão relacionadas a dois fatores: 1. o fato de loci-R estarem ou não sendo empregados; 2. a natu- reza do uso do espaço. As três próximas se- ções examinam as propriedades morfológicas dos quatro campos semânticos na LSI, com relação a esses fatores.

3. Campos espaciais e de posse na LSI

Os verbos que denotam mudança nos cam- pos semânticos espaciais e de posse apresen- tam grande semelhança morfológica. Nos dois tipos de verbos, os pontos iniciais e fi- nais não são lexicamente especificados, mas são, na verdade, determinados por locações no espaço associadas com os argumentos do verbo. Esses pontos, freqüentemente chama- dos de loci-R, determinam a direção do mo- vimento de trajetória do verbo. Os loci-R são cruciais ao sistema referencial das línguas de sinais e são muito importantes para entender as propriedades morfológicas dos diferentes campos semânticos. Por essa razão, eles são descritos mais detalhadamente aqui.

Nas línguas de sinais, nominais em uma oração são associados com locações discretas no espaço, chamados de loci-R(eferenciais).

Irit Meir

Questões T

eóricas das P

esquisas em Línguas de Sinais

10

Essa associação normalmente é estabelecida sinalizando-se uma frase nominal e, então, apontando ou direcionando o olhar para um ponto específico no espaço2. Esses loci-R são

usados para referências anafóricas e prono- minais para os nominais associados a eles e são, assim, compreendidos como a mani- festação visual dos traços pronominais dos nominais em questão (vide, entre outros, Bahan 1996, Janis 1992, Klima e Bellugi 1979, Lillo-Martin e Klima 1990, Meier 1990). Ob- serve, entretanto, que essas locações não são determinadas por categorias de traços, como, por exemplo, gênero ou classe de substanti- vo. Cada argumento é designado seu próprio locus-R e assim ele pode ser compreendido mais como um indicador do que como um complexo de traços. Línguas de sinais, então, têm índices R manifestos (Lillo-Martin e Kli- ma, 1990).

Além de sinais pronominais, verbos que denotam movimento (mudança de locali- zação) e transferência (mudança de posse)3

também se utilizam do sistema de loci-R: os pontos iniciais e finais dos verbos não são le- xicamente especificados. Ao invés disso, eles são determinados em cada discurso com as locações no espaço associadas com os loci-R estabelecidos para os argumentos de origem e alvo do verbo. O movimento de trajetória do verbo, então, é do locus-R associado com o argumento de origem para aquele associado com o argumento alvo.

As duas frases em LSI abaixo (12-13) de- notam uma mudança de localização e uma mudança de posse. Em ambas, os argumen- tos estão associados com locações específicas

no espaço e a trajetória do verbo se move da localização de origem à localização do alvo.

12. JERUSALÉM INDICADORa, TEL-AVIV INDICADORb, CARROaTRAJETÓRIAb. ‘The car went from Jerusalem to Tel-Aviv.’ [O carro foi de Jerusalém para Tel-Aviv]. 13. BOY INDEXa, GIRL INDEXb, BOOK

aGIVEb [GAROTO INDICADORa, GA-

ROTA INDICADORb, LIVROaDARb]. ‘The boy gave the book to the girl’ [O me- nino deu o livro para a menina].

Os dois sinais de apontar em (12), INDI- CADORa e INDICADORb, estão associados com referentes locativos, ou seja, locações. Os mesmos dois sinais em (13) estão associa- dos com referentes humanos, dois possuido- res (anterior e futuro possuidor) no evento (giving event) representado na frase. Em ambas as frases, o predicado é um sinal cujo movi- mento de trajetória é variável, no sentido que seus pontos iniciais e finais são determinados pelos pontos no espaço estabelecidos pelos si- nais de INDICADOR. E em ambas as frases, a trajetória se desloca da origem para o alvo.

Ambos os campos semântico, espacial e de posse, então, utilizam loci-R de um modo semelhante. Em verbos dos dois campos, os pontos iniciais e finais são associados com loci-R dos argumentos de origem e alvo dos verbos (Meir, 2002). Contudo, existem di- ferenças importantes entre os dois campos. Essas diferenças estão relacionadas ao uso do espaço. No campo semântico espacial, o espaço sinalizado é interpretado como uma representação análoga do espaço do mundo

2 O sinal de apontamento é freqüentemente glosado como INDICADOR e o subscrito que o acompanha indica

um ponto específico no espaço.

3 Os verbos de movimento e de transferência são, freqüentemente, denominados ‘verbos espaciais’ e ‘verbos de

A realização morfológica dos campos semânticos

Questões T

eóricas das P

esquisas em Línguas de Sinais

10

Outline

Documentos relacionados